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As redes sociais têm reforçado a vigilância e controle da população, passando a reger, com implicações políticas e biopolíticas, as formas de viver. Esse reforço a visibilidade constante na vida da sociedade civil, transformou esse ambiente vigiado em todos os pontos, tornando-se um espaço fechado, compartilhando as mesmas informações em rede sobre o que fazemos a cada momento. Observa-se um crescente tipo de poder inspecional que se assemelha ao panoptismo citado por Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir: nascimento da prisão (2008). Evidentemente que os processos de criação em dança não escapam a esse comportamento modulador de informações.
O panoptismo na atualidade difere, pois esse comportamento se faz “voluntário” na relação comunicação-tecnologia e se ajustam conforme interesses dos grupos de pessoas, fomentando discursos e produzindo sujeitos constituídos de distintas lógicas discursivas a atuarem em um lugar tipicamente relacional. A complexidade que existe nesse panoptismo nas redes, ou panoptismo digital, como citado no texto: O Panoptismo Eletrônico Virtual e sua ameaça ao exercício da atitude crítica (2018) dos autores César Candiotto e Silvio Souto Neto, estão nas características contraditórias: efeitos positivos quando relacionados à saúde ao acompanhar doentes nos hospitais e efeitos negativos, quando se faz controle do sujeito, esse limiar entre liberdade e sujeição, apoio e dominação torna-o paradoxal.
Esse comportamento sempre vigiado e regulador intensifica a legitimação de vozes discursivas em um poder sobre as condutas dos indivíduos, normalizando e fazendo parte do cotidiano do qual estamos inseridos, inclusive nossa casa. Nesse atual momento de COVID -19, os corpos não podem ser tocados, mudanças ocorrem, a participação nas telas entre as pessoas, longe se estabilizarem, dinamizam e continuam a crescer e a satisfazer desejos de informação e conhecimento fomentados por máxima visibilidade, anseios e interesses pessoais individualizados. A artista da dança e pesquisadora Helena Bastos (2020) no texto Corpo sem vontade imerso em coisas vivas (2020), descreve que a partir da crise sanitária no qual estamos vivendo, o mundo das telas já nos coabitava e que esse mundo não parou. Com isso, o corpo está plugado e confinado, mesmo antes do COVID -19, ou seja, não nos demos conta que essa forma de governo que é o panoptismo trata-se de uma ameaça a possibilidade do sujeito de pensar por si mesmo.
Ao tratar o corpo como fruto dessas participações, esse fazer se organiza nas discussões e informações, sendo que a “responsabilidade de cada um de nós com o que cada um é e com o que o mundo não somente é, mas sobretudo com o que o mundo pode ser” (KATZ & GREINER, 2011, p.6). Ou mais especificamente, todos circulam nesses poderes e nos acordos que incluem e permeiam o processo de existência e atuação, a disposição a um procedimento que promove a falta de um posicionamento crítico em relação ao que se tem postado curtido e compartilhado e termina por padronizar um tipo de comportamento que muitos artistas acolhem para se fazerem pares, na tentativa de se tornarem conhecidos.
Segundo Rogério Costa, Professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, no texto Inteligência coletiva: comunicação, capitalismo cognitivo e micropolítica (2008) os processos em colaboração estão presentes por toda parte em nossa sociedade e que a emergência desse movimento entre as pessoas de se manifestarem, pode ser explicada pela dependência que cada indivíduo estabelece com o outro, uma dependência recíproca de participação.
A pergunta que move esse artigo é: Qual alternativa ou tentativa de resistência pode vir a romper com um modelo que tem no panoptismo digital uma condição de vida? Como não se influenciar discursivamente quando se deixa governar por uma política neoliberal de governo?
Essas e outras perguntas espelham ações a uma prática artística urgente a partir de experimentos, leituras de textos, conversas e tessituras com profissionais das artes para se pensar politicamente esse atual contexto, em que os indivíduos submetidos ao regime de visibilidade constante, perdem autonomia e liberdade. Fazem parte dessa discussão além dos autores citados, Helena Bastos, César Candiotto, Christine Greiner, Rogério Costa e Helena Katz, seguiremos em fluxo com Michel Foucault, Roberto Espósito, Antonio Negri e Michel Hardt, Ailton Krenak, Suely Rolnik e Peter Pélbart.
A partir desses autores irei partilhar o processo de residência LabCorpopalavra, que participei como artista criadora, durante sete semanas. Parece possível pensar essa prática artística, como possibilidade de resistência quando nos possibilita identificar quais dispositivos estamos nos submetendo diariamente e desenvolver uma perspectiva crítica e reflexiva sobre que ações se fazem possível acessar, para contornar esses modos negativos de vigilância e controle que nos permeiam cotidianamente.
O Lab Corpo Palavra desenvolvido pela artista da dança Aline Bernardi(RJ), tem em sua proposta a construção das dinâmicas de corpo-fala, corpo-escrita e corpo-ação, aqui separado pela questão didática, mas se imbricam em tessituras móveis na presença dos Corposmídias e nos encontros, que mesmo nas telas não intercepta possibilidades de criarmos arte e nos movermos articulando experiências com os materiais propostos.
O objetivo do LabCorpopalavra é adentrar caminhos a uma escrita cartográfica na constituição de dramaturgias itinerantes, e tendo nessa cartografia o reconhecimento de que se está continuamente em processo.
Portanto, há de se pensar os modos de criar, ensinar, aprender e contextualizar a diversidade das realidades que nos cercam, sem pretensões, de iluminar, homogeneizar, categorizar e referendar, assim como rever os espaços que ocupamos em nossos lugares de ação
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