Pisa-pé: um pensamento coreográfico e infâncias negras

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Comitê Temático - Apresentação Oral
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Resumo

Este trabalho pretende analisar a brincadeira e/ou jogo pisa-pé como um pensamento coreográfico em seus aspectos éticos-políticos no processo de criação em dança com/para crianças negras e de periferia.
O pisa-pé se transformou em um procedimento criativo na montagem do espetáculo infantil “Pau que nasce torto...e o backyard” da Companhia de danças negras ExperimentandoNUS sediada na cidade do Salvador. O espetáculo circulou em quilombos, periferias entre 2014 e 2019. Ao compreender o pisa-pé, um jogo conhecido em várias regiões do Brasil, apresenta algumas variações, mas mantém uma estrutura comum desde as regras a sua metodologia. Uma brincadeira que se transforma numa dança em que corpos geram rotas, caminhos de tomadas de decisão, o fazer escolhas a partir da relação se implicando em dimensões políticas do/no corpo movida no compasso das (tentativas de) pisadas de pé sequenciadas, “ O corpo é um tecido bordado com búzios onde crianças brincam” (SILVA, 2020, p.25). Uma das configurações do jogo é a formação de uma roda de crianças, todas colocando um dos pés no centro da circunferência formada. Enquanto os pés estão no centro, e depois disso dá-se um pulo para trás e os participantes vão dizendo a ordem de quem será o primeiro, segundo de acordo com as regras propostas, até o último a jogar. O primeiro participante tem que tentar pisar no pé de alguém com um único passo ou pulo e ficar onde parou, na mesma pose congelada. A pessoa responde tentando tirar o pé rapidamente num outro único passo ou pulo e congelar também. Quem tiver seu pé pisado, sai da roda e passa ao estado de observador. A partir deste jogo se configura um procedimento cênico para pensar criação de espetáculos para infância de crianças negras e de periferia, dialogo com a professora e pesquisadora Inaicyra Falcão (2015) quando nos diz que a memória articulada à qualidade expressiva do movimento do corpo contempla aspectos rítmicos, dinâmicos e impulso ao jogo, que elaboram outras narrativas. Neste sentido os aspectos que autora aborda diz respeito ao corpo e ancestralidade, logo o corpo negro, redimensiona a experiência do pisa-pé, apresentando-se como um estimulo de reelaboração de práticas de processos complexos como o racismo. Qual a intensidade e estado de corpo que piso no pé do outro? As crianças aprendem e reproduzem estados de agressividade e violências? Silvio Almeida (2018) explica as relações raciais instauradas na sociedade. Para o autor, o racismo é um modo estrutural social de funcionamento normalizado da vida cotidiana, produzindo e reproduzindo de maneira sistêmica práticas racistas que constitui relações políticas, históricas e até familiares.
Um campo de futebol no bairro dos Barris em Salvador, nas tardes de sol a pino, o processo de experimentação com os bailarinos da ExperimentandoNUS Cia de Dança com o pisa-pé era realizado no chão de barro vermelho. Esse primeiro momento as memórias afetivas eram ativadas por meio do jogo e toda arquitetura, textura, sentidos e ambientes proposto. A insistência de continuar no pisar-pé partiu das infinitudes de possibilidades geradas pelo corpo durante o jogo. Eram muitas imagens, gestos, ações, relações, intensidades, possibilidades, caminhos. O jogo passa a configurar um procedimento coreográfico, e a coreografia um pensamento. Renato Noguera (2011) diz que o pensamento só é possível com o corpo, logo as rotas e elaborações coreográficas não seria um pensamento, um modo de operar com a linguagem da dança?
Subsequente a essa experiência para montagem do espetáculo que estreou em 2014, novas experimentações a partir do pisa-pé foram desenvolvidas nos Quilombos do Tereré, na cidade de Cachoeira ambas na Bahia, nos quilombos de Águas Pretas e Nazaré no sertão do Ceará, no Condomínio Cultural em São Paulo e no morro do Fubá na cidade do Rio de Janeiro. Ao apresentar o espetáculo, as crianças passavam a ser os responsáveis pelos acontecimentos, ou seja, eram elas que direcionavam com a mediação dos bailarinos o desenvolvimento da obra. O espetáculo era cada lugar que lhe configurava, ou seja, cada contexto surgia inúmeras danças a partir do pisa-pé em tempo real com aquelas crianças dançantes criadoras. Para Silva (2020) o corpo negro ressignifica e reconfigura modos de ser e sentir em relação ao seu contexto. Nesta abordagem o interesse é pensar na brincadeira como jogo coreográfico que corporifica e problematiza processos complexos de criação e estratégias de sobrevivência em coletivo, ou seja, relações éticas-política. O coletivo no sentido de comunidade, grupos de crianças negras que brincam, se relacionam em seus contextos de ajuntamento interferido pelos marcadores sociais. Para desenvolver esta abordagem parto da noção do Corpo e Ancestralidade da professora e pesquisadora Inaicyra falcão (2002) que nos ajuda a pensar experiência artística através de vivências de eventos reais, neste caso o pisa-pé, que afeta e é afetado pelos conceitos estéticos e simbólicos promovido pelo jogo, postulado neste resumo como procedimento; o conceito de infacialização do professor e filosofo Renato Noguera (2018) a tratar a infância como uma condição de possibilidade de novos modos de vida, um agenciamento de provocações de tensões e encantamentos em relações política-educativas; Eduardo de Oliveira (2007) no que diz respeito a ética como um modo de educação de corpos, de criação de realidades em busca de experiências de liberdade e compromisso; Muniz Sodré (2019) O terreiro e a cidade: a forma social negro brasileira e Abdias do Nascimento (2019) Genocídio do Negro Brasileiro para desenvolver perspectivas de periferia; Júlio Tavares (2015) com o conceito de blindagem cognitiva contribui para desenvolver relações comunicacionais que implicam na experiência social coletiva de modos de aprender.

Instituições
  • 1 Universidade Federal da Bahia
Eixo Temático
  • Dança e diáspora negra: poéticas políticas, modos de saber e epistemes outras
Palavras-chave
corpo
Dança
crianças negras
coreografia
brincadeira